Infância

Abuso, medo e trauma de uma infância roubada.

03:30 Anna Vlis 22 Comments



Este com certeza é o post mais difícil de escrever, eu estava entre os 06 e 07 anos de idade e sem sombra de dúvidas o que aconteceu comigo deixou marcas para o resto da minha vida, que você irá perceber conforme eu for relatando.




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Imagem http://www.carinhodeverdade.org.br/


Como disse no post anterior ( aqui ), minha mãe estava morando junto com um homem, ele parecia ser a solução dos nossos problemas, teríamos uma família feliz, pai, mãe e irmãozinho, quando ele chegava de viagem com muitos doces era o paraíso no céu, até o dia em que ele resolveu demonstrar seu "amor" de pai.


Em uma tarde, minha mãe tinha saído para ir ao hospital levando meu irmão para tomar vacina, meu padrasto estava deitado na rede e me chamou para deitar com ele, e começou a me tocar, eu me senti mal e pedi para ele parar, ele disse:


- Eu sou seu pai agora e te amo muito,isso que tô fazendo é para mostrar que te amo.


- Não conta nada para sua mãe é nosso segredo viu?



Eu não entendia o que estava acontecendo,só sabia que não gostava.


Eu chorei, pedi para ele parar, estava me machucando, ele me mandou calar a boca e disse que se eu contasse para alguém ia me bater,  se eu contasse era porque era malcriada e uma menina malcriada tem que apanhar para aprender.


Quando minha mãe chegou eu estava em um canto do quarto, chorando baixinho e com medo, ela sequer percebeu.


Eu não desgrudava da minha mãe, ela me mandava fazer as coisas e eu simplesmente não conseguia sair de perto dela.


Ele viajou, eu fiquei feliz demais, os dias que ele esteve fora foram maravilhosos, eu podia correr e brincar pela casa, não tinha medo. Então ele voltou, com seu baú cheio de doces, e não corri para recebê-lo, não consegui tocar em um doce sequer.


Ele pediu para minha mãe ir fazer compras em Teresina(cidade ao lado), eu grudei na minha mãe e chorei para ir junto, ele dizia que eu estava ficando mimada e que não era para fazer minha vontade, eu gritei, implorei, ela me deu uma surra, eu fiquei toda marcada, estava toda dolorida e ela saiu, me deixando sozinha com aquele monstro, ele me chamou, disse que eu era uma menina muito teimosa, que merecia ser castigada, pensei em correr, mas não consegui me mexer estava com muito medo.


Ele foi onde eu estava, me pegou no colo e me colocou em cima de uma esteira de palha, não consigo lembrar detalhes do que aconteceu, lembro em flashes de memória, eu chorando, ele tapando minha boca, ele em cima de mim.


Quando minha mãe chegou, eu estava muito mal na rede, tremia e tive febre, ele disse que a culpa era dela, por causa da surra que ela me deu. Ela acreditou, me deu uns chás.


Não conseguia entender por que aquilo estava acontecendo comigo, eu fiz de tudo para não ser uma menina "teimosa" de novo, fazia tudo que minha mãe mandava, e quando ele viajava eram meus únicos momentos em que me sentia um ser humano. Mas ele sempre voltava e sempre me castigava, não sou capaz de descrever o que ele fazia comigo nem o que me mandava fazer, muito menos o que me dizia, eu não consigo, mas sempre achava que tudo aquilo era culpa minha.


Minha mãe engravidou dele, e ele sempre dizia que se eu contasse para alguém ele matava minha mãe, meu irmão e eu.  Minha vida era recheada de pavor e ninguém para pedir socorro.


Então o tempo foi passando, eu não lembro de um único sorriso que dei neste período, nenhum momento de felicidade.


Lembro que a partir dos 08 anos, comecei a ter pavor de dormir, pois eu não era mais castigada "apenas" nos momentos que minha mãe saía, passou a ser a noite também, quando escurecia e estava no escuro do quarto o monstro sempre aparecia. Desejava morrer, viver era um inferno, eu só queria que alguém me salvasse.


Mas ninguém apareceu, minha mãe estava muito mal, ela começou a passar dias em um mundo só dela, falar coisas sem sentido com mais frequência, alternava dias de lucidez e fantasia e tinha acabado de ter gêmeas Verônica linda negra e Valéria linda branquinha.


O monstro fez uma viagem, dessa vez demorou muito, minha mãe passava os dias na rua andando e me deixava sozinha com as gêmeas e meu irmão, eu fazia as mamadeiras, dava comida, limpava a casa.


Então em um dia minha mãe saiu mais cedo ainda e durante o dia somente uma das gêmeas acordou , a outra continuava dormindo, eu achava maravilhoso por que assim tinha menos trabalho e mais tempo para brincar, sem dar a devida  importância ao fato da minha irmã não acordar, passei o dia cuidado da Verônica, a gêmea que acordou e do meu irmão Rodrigo, no fim do dia dei mamadeira para a Verônica e comida para o Rodrigo, dei banho nos dois e coloquei para dormir.


Eles dormiam rápido quando eu balançava a rede, então escureceu e minha mãe não chegava, não tinha mais querosene para a lamparina e eu tinha medo do escuro, fiquei na porta de casa, a lua estava cheia e clareava a rua, então minha mãe chegou, perguntou como estava tudo, eu disse que meus irmãos estavam dormindo e que a Valéria, não tinha acordado o dia todo, não tinha dado nenhum trabalho, por que dormiu o dia todo, minha mãe foi olhar as crianças, pegou a Valéria no colo e percebeu que ela estava com manchas pelo corpo todo...(continuação aqui)

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22 comentários:

  1. Amiga , nem sei o que te dizer mas , sempre que ouço esses relatos tenho mais certeza que as crianças merecem muuuuita atenção quando estão caladas e tristes e na maioria das vezes as mães não percebem e saibam que criança tem que ser ouvida e acreditada, imagino a sua tristeza minha querida,bjs estou aguardando a continuação.

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    1. Sim minha linda, temos que ficar atentos com as crianças, elas sempre dão sinal quando estão sofrendo! Obrigada por seu comentário, bjinhos <3

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  2. Devidamente, não sei o que dizer sobre tamanhas barbáries vivenciadas por você. Acho muito necessário que os pais observem mais o pedido de socorro de suas crianças. Isso com certeza ocorre na maior parte das famílias ainda, eu temo muito por tantas crianças, passando por minutos, dias e horas, de tanta opressão e terror.
    Beijos

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    1. Sim, ocorre e muito, infelizmente. Obrigada pelo comentário, bjnhos

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  3. Nossa,suas vizinhas eram muito covardes!E esse pedófilo que se aproveitava de vc!Ainda por cima vc tinha que ficar calada sem ter com quem desabafar,sem ter quem lhe acudisse,meu Deus!Muito triste!
    Ansiosa pela continuação da história!
    Beijos!

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    1. Sim eram, realmente existem pessoas muito ruins nesse mundo. A continuação será no fim do mês, bjinhos lilás <3

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  4. Já pensou em escrever um livro,amiga?
    Tenho certeza que venderia muitos exemplares!

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    1. Acho que o meu português não me garante escrever um livro rsrsrs! Quem sabe um dia faço a faculdade de letras <3. Mas claro sempre alguém pode revisar o livro, bjinhos e obrigada pelo comentário minha linda!

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  5. Nossa, Ana, que triste! Fiquei angustiada com seu relato, sinto muito mesmo que sua infância tenha sido tão dolorosa. Imagino as marcas que isso te deixou e que até hoje ardem em seu coração, mas Deus é contigo, minha linda. Imagino a dor que sentiu ao revelar isso, mas esse post servirá pra muitos pais que não são tão atentos aos seus filhos. Sempre vivi com padrastos, mas graças a Deus eram pessoas boas e minha mãe sempre estava de olho em mim e atenta a tudo.
    Um forte abraço.

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  6. Anna você deve ter sofrido muito, eu nem posso imaginar esse seu sofrimento, infelizmente essa história acontece pelo mundo, pode até ser diferente mas acontecem, Anna quando leio o seu relato eu fico pensando e se tivesse acontecido comigo, dá muita tristeza, Anna bjs.

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  7. Eu me emocionei lendo....
    Eu não consigo aceitar esse tipo de monstruosidade...
    Espero que na sequência algo de mal tenha acontecido com esse monstro.

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  8. ua queriida muita força é Deus em sua vida

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  9. oi!!
    Nossa!!! Sinto muito pelo que você passou....
    Infelizmente esta é uma realidade não só no Brasil mas sim no mundo.
    Homens assim tinham que ser condenados a morte,.

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  10. Oi Anna,

    Primeiramente, Parabéns pela coragem em colocar aqui o seu relato. Eu fui lendo seu texto inteiro chorando, me debulhando em lágrimas. Passei por uma situação bem parecida com a sua e sei como é a sensação de medo, pavor e desespero. Pelo que me parece, não tive um final tão trágico quanto o seu, passei longe disso, mas as marcas ferem até hoje.
    Infelizmente, estas situações são mais comuns do que imaginamos. Monstros estão a solta por todos os lados, esperando apenas uma oportunidade para machucar inocentes. Meu objetivo de vida é criar uma ONG para ajudar crianças que sofrem deste trauma, que possuem sua infância destruída e manchada por um doente.
    Quero muito ler a continuação e ver este desfecho lamentável...

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  11. Surreal imaginar esse sofrimento. Isso pra mim so pode ser doença...não é possível tamanha maldade. Lamento pelo que passou. Mada que se fale conserta ou ameniza o sofrimento, mas desejo força e fé para seguir em frente sempre!

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  12. Nossa... Fiquei em choque com seu relato, sinto muito pelo que você teve que passar :/

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  13. Caramba, é um relato e tanto, eu fico revoltada sempre que leio/ouço qualquer tipo de história nesse sentido, inclusive sou a favor da pena de morte para pessoas que cometem esse tipo de atrocidade. O texto realmente tocou fundo

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  14. Nossa, eu to sofrendo muito com esse testemunho seu, estou aguardando os próximos, não pra ver o sofrimento, mas quero saber se você conseguiu contar isso pra alguém e se superou tudo isso! É de extrema importância que você conte isso e dê forças se alguém tiver passando pela mesma situação. Espero de coração que você esteja bem e sinto muito pelo que você passou!
    Boa sorte

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  15. Anna, que situação dolorosa, as palavras que você pouco descreve nos faz imaginar um tanto da sua dor e revolta com esta situação que infelizmente muitas crianças passam. Força e muita fé

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  16. Que barra!
    Fiquei imaginando o que você passou.
    Muita força é o que você precisou ter!

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  17. Oi Anna! tenho acompanhado seus relatos e toda sua dor, chega a me revoltar, não é fácil, e você está muito corajosa em relatar tudo, desejo muitas bênçãos em sua vida, Deus te proteja. Bjs

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  18. Que Deus lhe abençoe muito lhe dando sempre muitas forças

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