Em busca de fartura!



Imagem Pixabay


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 Confesso que hoje, imaginando a cena, é até difícil de acreditar.
Uma menina de quase 12 anos, descalça, descabelada, completamente desesperada porque acabara de menstruar.

 Mas você deve lembrar que eu não tinha com quem conversar sobre isso, minha mãe era doente e as pessoas não se aproximavam para dá conselhos e nem ter conversas desse tipo.

 Então uma jovem, que trabalhava como atendente na lanchonete, veio em minha direção e me perguntou qual era o problema, eu disse:

 -Estou morrendo, tem muito sangue saindo de  mim.
 Ela sorriu e me levou ao banheiro da lanchonete, me deu um absorvente e já foi dizendo que ia ficar tudo bem.
 Olhei para aquele absorvente e nem pude imaginar como ia usar aquilo.
 Ela me explicou, tirou a proteção e me mostrou como deveria colocar, bom, me protegi daquele sangue todo, ela me deu um pacote.

 Desci para o rio, precisava tomar banho, lavei a roupa e coloquei para secar, coloquei o absorvente (modes, rsrs), e achava que todo mundo estava percebendo, me senti andando com as pernas abertas, foi muito estranho.

 Se passaram alguns meses, eu já estava ficando acostumada a ficar menstruada, mas não usava mais absorvente, era pano mesmo, que usava e lavava, era mais barato.
 Minha mãe andava impaciente, nos fazia andar a cidade toda, ela não conseguia mais ficar parada, queria ficar andando.
 Então um dia, em meio a tantas palavras que ela dizia e que eu não conseguia entender, ela disse que íamos para Manaus, que lá tinha fartura e não íamos mais sentir fome.

 Eu, minha mãe e meu irmão que agora estava com 06 anos, iriamos começar nossa jornada, ela queria chegar em Manaus a pé!

 Ela decidiu o caminho que devíamos seguir, o mais próximo possível da estrada e do rio, mas nem sempre os dois estavam próximos ao mesmo tempo.

Começamos nossa caminhada em busca de fartura, saímos de Teresina rumo Manaus!
Tínhamos uma muda de roupa no corpo e uma na sacola, minha mãe carregava mais algumas bugigangas, também um pouco de comida.


Andamos um dia inteiro, minha mãe andava rápido, então eu e meu irmão no primeiro dia já estávamos cansados, começava a escurecer e então nos ajeitamos em qualquer lugar no canto da estrada, no mato, dormimos assim que escureceu e acordamos antes de amanhecer direito.

Nesse trecho que minha mãe resolveu seguir (procurando ficar perto do rio mas também da estrada), em alguns lugares da caminhada mal víamos casas, uma ficava muito longe da outra, sempre que passávamos por algum povoado, eu ia para a feira ou para as casas quando não tinha feira, pedir comida para encher nossas sacolas, em alguns trechos não dava para ficar perto do rio, então era muito difícil encontrar água, sempre que encontrávamos alguma casa, pedíamos água, bebíamos bastante e enchíamos as vasilhas.

Era uma festa quando encontrávamos algum pé de caju lotado, ou pé de manga e devorávamos os piquis que víamos pela frente, comíamos até não aguentar mais, acho que tenho espinho na língua até hoje!

Depois de um mês andando, não estávamos nem na metade do nosso destino, eu não tinha mais medo de dormir no mato, com o barulho dos bichos, mas o sufoco que passávamos quando demorávamos para chegar na próxima casa era terrível.
 Minha mãe nos levou para longe da estrada, querendo ficar perto do rio, mas depois de 14 horas, andando no sol, sem sinal de nenhuma casa, nem do rio, o medo começou a ficar constante.

 Então se passaram mais horas,dormimos com sede, e amanhecemos fracos, nenhum sinal de casa, nem rio.

Meu irmão nem reclamava mais de tão fraco, andávamos nos arrastando, a barriga doía e a boca completamente seca, eu olhei pro céu e vi uns urubus próximos, comecei a acompanhar o voo deles com os olhos, mal tinha forças para levantar a cabeça, então um urubu começou a descer, eu fui andando em sua direção,não estava tão distante, então foi aí que vi que havia uns restos de uma vaca  que eles estavam devorando,e ao lado da vaca uma poça de lama, eu me ajoelhei naquela poça e bebi como se fosse a água mais pura desse mundo, aquela poça de lama nos deu mais uma chance de continuarmos vivos. (continuação em breve)
Em busca de fartura! Em busca de fartura! Reviewed by Anna Vlis on 13:02 Rating: 5

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